Não posso fazer feio, tenho que caprichar

Adauto Scardoelli revela como pretende governar para corresponder à confiança da população que o levou ao quarto mandato como prefeito

Aos 67 anos, Adauto Scardoelli (PT) dá início ao seu quarto mandato à frente da Prefeitura de Matão. Ele já era o prefeito que por mais tempo havia governado a cidade, nos 12 anos que compreendem os períodos de 1997/2000, 2005/2008 e 2009/2012. Agora, com o respaldo de 44,42% dos votos válidos registrados na última eleição – em que concorreu com outros seis candidatos –, Adauto faz questão de frisar a maturidade com que reassume a administração municipal para o mandato 2021/2024. “No decorrer da vida, estamos sempre aprendendo algo. E em cada período há um desafio – como agora, em que estamos vivenciando essa grave pandemia. Mas me sinto com muita energia e disposição para voltar à Prefeitura. É como se construíssemos uma casa ao longo da vida e, agora, parece que estou voltando para dar o acabamento; então não posso fazer feio, tenho que caprichar”, salientou.

Adauto sabe que herdará uma Prefeitura cuja saúde financeira apresenta um quadro crônico há anos, mas salienta que sua atenção não estará voltada à gestão passada, e sim à união de forças para contribuir com seu governo. “Já havíamos iniciado o processo de transição entre os governos e ainda estamos apurando as informações; acredito que em janeiro ou fevereiro teremos um quadro real da situação da Prefeitura e apresentaremos para a população, mas não ficaremos olhando para o passado. Já disse ao ex-prefeito Esquetini para ‘não sujar meu para-brisa’, pois governarei ‘sem olhar pelo retrovisor’, visando construir o futuro. Este é o momento para fazermos um governo plural, amplo, democrático, em conjunto com as forças vivas da cidade, ou seja, termos um diálogo aberto e permanente para fazer com que Matão volte a crescer e se desenvolver. O slogan da minha campanha foi ‘Para cuidar de Matão outra vez’; essa é a essência da nossa volta, a perspectiva e o norte do nosso trabalho”, definiu.

Em entrevista exclusiva para A Comarca, Adauto destaca as primeiras ações de seu governo, revela como pretende se posicionar junto à prestação de serviços essenciais – como os relacionados a água, esgoto e coleta do lixo –, apresenta novas propostas para o atendimento na saúde e para a distribuição da merenda escolar, anuncia o alinhamento político do PT com o MDB e afirma que “é uma questão de honra” finalizar a obra e entregar o Centro de Educação Complementar (CEC) à população até o final de seu mandato. Confira a seguir.


Quais serão as primeiras medidas de sua nova gestão?

Nestas primeiras semanas de governo, vamos limpar a cidade. Vamos fazer uma faxina, uma limpeza geral. E o programa que já pretendo retomar é o ‘Boa Praça’. Estamos buscando parcerias com empresários e a aceitação tem sido ótima, inclusive, alguns até já se propuseram a adotar praças. Vamos seguir a mesma linha do programa implantado anteriormente, junto aos aposentados, até porque – nesta época de pandemia da covid – a praça é um dos melhores lugares para o idoso, que pode sair de casa para ficar num ambiente arejado e com o devido distanciamento entre as pessoas. Reativamos o contato com a ONG Ocara e já estamos preparando o projeto para enviar à Câmara, visando retomar este programa socioambiental que gera emprego, renda e autoestima aos aposentados, além de proporcionar a manutenção gradativa das praças com os serviços de jardinagem e pintura. Pretendemos ter em torno de 100 ‘boas praças’. Atingindo esse número, com cada um recebendo R$ 500,00, teremos uma injeção de R$ 50 mil por mês na economia da cidade, mais os R$ 50 mil do Vale Alimentação, ou seja, geraremos 100 empregos gastando R$ 100 mil. Mas o fato do aposentado se sentir útil, contribuindo com a sociedade e reforçando sua autoestima, não tem preço. Simultaneamente a isso, com a firmeza e rigidez necessárias, manteremos o cofre fechado, ou seja, não pode haver nenhum desperdício. Já disse em reunião com os secretários: é inconcebível, em plena pandemia, o número de horas-extras na Prefeitura, algo próximo de R$ 300 mil por mês. Não há justificativa! Está tudo fechado! Já disse aos secretários que somente haverá hora-extra com minha autorização; se tiver hora-extra sem minha autorização, descontarei do salário do respectivo secretário. Precisamos governar com firmeza, seriedade e fiscalização para colocarmos a ‘casa em ordem’. Recebi a informação de que a Prefeitura tem uma dívida de curto prazo num valor em torno de R$ 90 milhões e uma dívida flutuante em torno de R$ 110 milhões. Isso é impagável. Em julho, agosto e setembro deverão vir quase R$ 15 milhões de precatórios, sendo que 70% deste montante – cerca de R$ 10 milhões – são referentes a precatórios de pequeno valor, ou seja, devem ser pagos em até 90 dias. Então, tenho dito aos secretários de que deve haver um esforço coletivo de todos, pois se houver desperdício agora, em dezembro não terá dinheiro para pagar o salário nem o 13º. Já disse que não me importo com minha popularidade neste primeiro ano, pois sei que se todas as medidas corretas de gestão forem tomadas, ela crescerá nos anos seguintes.


Como o governo se posicionará a respeito do reajuste da tarifa da água?

Com o IGP-M completamente em disparate com a realidade econômica do país, assumi o compromisso – durante a campanha eleitoral – de que não iria liberar o reajuste da água com base neste índice. Mas a OAB-Matão já entrou com pedido junto ao Ministério Público, que abriu inquérito para apurar essa questão. Se houver bom senso entre as partes, pode ser feita uma repactuação deste contrato para que ele não seja leonino, nem para a administração municipal e nem para a concessionária, e vise seu resultado em benefício da população. Então agora participaremos do processo judicial – pois a Prefeitura é parte envolvida – trabalhando com essa lógica, lembrando que uma das consequências do preço da tarifa da água é também o alto custo da concessão do serviço de esgoto. Me deixa muito à vontade nesta discussão o fato de que não fui eu quem fez as concessões; elas aconteceram em 2002 com o Jayme (Gimenez) e em 2014 com o Chico (Dumont) porque a Caema ‘tinha morrido’ – a concessão do esgoto ‘matou’ a Caema, tornando-a inviável. Espero que, judicialmente ou na mesa de negociações, as partes envolvidas cheguem a um equilíbrio sobre essa questão da tarifa de água – e se quiserem, elas chegam. O contrato de concessão prevê um estudo de reequilíbrio orçamentário a cada cinco anos, uma revisão quinquenal. Eu iria entrar com este pedido de revisão, mas como a OAB se antecipou, o processo já está na Justiça e deverá ser respeitado o princípio da repactuação.


Os serviços de coleta de lixo e de distribuição da merenda escolar continuarão sendo prestados com base nos últimos contratos?

O contrato referente à coleta do lixo foi renovado pelo Edinardo, de novembro de 2020 a novembro de 2021. Já o contrato para a merenda escolar, que terminava em 31 de dezembro, pedi para o Edinardo renovar por mais 30 dias, até porque é recesso e eu teria um mês para estudar o que iria fazer, mas ele renovou por mais um ano. No entanto, uma das medidas básicas que tomaremos em 2021 é de que o município será o responsável pela merenda das escolas municipais e o Estado se incumbirá da merenda das escolas estaduais, já a partir de quando começar as aulas. Em Araraquara é assim que acontece. O município não tem mais condições de fazer a merenda das escolas estaduais, pois o recurso que recebe para isso não cobre o custo. Ressalto que Matão foi um dos poucos municípios paulistas a não aderir ao programa de municipalização do ensino entre 1997 e 2000, quando eu era prefeito, senão estaríamos com todas as escolas da cidade sob responsabilidade do município e o Estado se incumbiria apenas das quatro escolas que oferecem Ensino Médio. Neste ano também providenciaremos uma fiscalização dos ingredientes que compõem a merenda, pois temos um cardápio licitado. E ainda tenho uma proposta para apresentar após o término do contrato: as empresas que fazem refeição em Matão poderiam disputar uma concessão para servir diferentes ‘lotes’ formados por determinadas escolas, creches e emeis. Eu quero conceber isso, acho que ‘dá jogo’, pois seria uma concessão envolvendo empresas que fazem comida em Matão para as crianças de Matão.


Além das medidas de contenção de despesas, o que o município pode fazer para aumentar sua receita?

Nosso setor metalúrgico teve um ano bom, o que nos dá a perspectiva de um aumento na receita do município. E temos que correr atrás de recurso extra. Vou virar novamente um ‘caixeiro viajante’. Vou colocar projetos embaixo do braço e partir para São Paulo, Brasília, bater em todas as portas. Já levantei todos os deputados que tiveram votos em Matão para pedir recursos. Já conversei com o Antônio Galli e com o Marquinho Galli, presidente do MDB de Matão, que fará o contato com o deputado Baleia Rossi; já falei com o Neto Masselani, o Rodrigo Garcia; o Ivan Serigato tem mantido contato com vários deputados... ou seja, precisamos ir aonde tiver recursos para a cidade, até porque haverá eleição para deputado em 2022 e os candidatos terão que vir a Matão para pedir votos. E nós vamos jogar limpo, mostrando quem ajudou a cidade e quem não ajudou, independentemente do partido.


Já há notícias sobre um alinhamento político entre o PT e o MDB.

A escuridão do autoritarismo, que ocasionou a vitória de Bolsonaro, levou o Brasil para esse obscurantismo político. A nossa geração viveu esse período durante a ditadura; nós sabemos o quanto isso custava. Então, vejo que hoje já avistamos um reacender da democracia. Esse rearranjo político com a candidatura do Baleia Rossi à presidência da Câmara Federal, representando um ‘não Bolsonaro’, é muito importante, inclusive defendo dentro do PT para que haja essa composição e já disse isso ao Marquinho Galli, presidente do MDB local. Além dessa disputa dar uma oxigenada na política dentro do Congresso Nacional, é importante que nossa cidade possa ter um presidente da Câmara Federal cuja base está a apenas 100 quilômetros de Matão. Também defendo que haja uma discussão sobre a importância da cidade ter um candidato local a deputado, que talvez possa ser o Marquinho Galli. Estamos tendo uma boa relação com o MDB local, que não lançou candidato a prefeito; inclusive, fizemos uma coligação na Câmara Municipal para garantir a governabilidade numa relação de lealdade.


Como pode ser resolvido o problema da falta de médicos no município?

Pela informação que me chegou, o Hospital de Matão pode se credenciar junto ao MEC (Ministério da Educação e Cultura) para também ser um hospital de residentes, o que já amenizaria a falta de profissionais. Mas tenho uma proposta para a Saúde, que já apresentei para a Diretoria do Hospital. Vamos constituir uma comissão agora em janeiro – formada por membros da Secretaria da Saúde, do Hospital, médicos e demais representantes – para pensar e conceber um projeto que leve a Secretaria da Saúde e as especialidades médicas para o antigo prédio do Fórum, como se fosse uma Central. Teremos um círculo de resolutividade: quem não for atendido na ESF (Estratégia de Saúde da Família) do Bom Jesus, por exemplo, vem para a UBS (Unidade Básica de Saúde) da Vila Pereira, e quem precisar de uma especialidade – ortopedista, cardiologista, enfim – viria para essa Central. Com os especialistas neste local se resolveria o ‘gargalo’ existente hoje com a falta de profissionais e as consequentes filas. Quem precisar de cirurgia será encaminhado ao Hospital e, nesta ponta, que precisar de transplante será levado a um centro regional. Se a proposta for aprovada pela comissão que a debaterá, teremos uma Unidade Central física com a Secretaria da Saúde, o atendimento de especialistas, o Pronto Atendimento Infantil, ou seja, desafogaremos o Pronto Socorro e o Hospital. Neste semestre ainda reativaremos as 15 equipes de PSF (Programa Saúde da Família), que já melhorará o atendimento em toda a periferia.


Como o governo municipal pode ser um indutor para a geração de emprego?

Temos vários caminhos, como alguns que já traçamos. O Distrito Industrial Adolfo Baldan, por exemplo, que estava abandonado, eu asfaltei, iluminei e regularizei; criei o Distrito Industrial de Toriba, que hoje é o melhor de Matão; fiz o Portal Terra da Saudade, com quadras residenciais, comerciais e mistas. Agora penso em fazer o Distrito Industrial de Toriba 2, numa área com cerca de 16 alqueires, descendo até a Rodovia Faria Lima. Já arrumei uma área para a Fatec-Matão e temos duas áreas à disposição para a expansão do Senai, visando agilizar a qualificação da mão de obra.

Também vamos propor permuta envolvendo áreas em troca do investimento por parte da iniciativa privada, que também seria responsável pela manutenção da estrutura física das respectivas obras.


Como a gestão municipal atuará em relação à pandemia do coronavírus?

Temos um exemplo a ser seguido com o que o prefeito Edinho Silva fez em Araraquara – uma referência. Entraremos em contato e adaptaremos algumas ações para Matão, além de seguir todas as normas sanitárias e cumprir rigorosamente as determinações da área da saúde. O governo federal ainda não divulgou nenhuma ação oficial relacionada à vacina contra a covid-19, um calendário, mas já pedi ao secretário da Saúde, Ademir de Souza, para providenciar uma reserva de recursos. Caso surgir uma parceria e precisar comprar um lote de vacinas, Matão não vai se omitir. Estarei disposto a abrir um edital de licitação e contribuir para garantir a saúde da população. Não vamos titubear. Isso é coisa séria!


O que será feito com a obra que inicialmente abrigaria o Centro de Educação Complementar (CEC) e, na gestão passada, passou a ser destinada a receber um Museu da Indústria?

O projeto voltará a sua concepção original. Não sou contra museu, acho importante para a história, mas lá não é o local. O projeto foi concebido para ser um Centro de Educação Complementar (CEC) que terá um papel extraordinário, pois não é possível abrir uma escola de música em cada bairro, mas as pessoas que tenham aptidão ou queiram aprender alguma das formas de arte – teatro, dança, pintura, enfim – poderão se dirigir a um ponto central que será um polo de formação cultural, além de possuir um teatro com 513 lugares. Temos condição e capacidade de planejar a finalização dessa obra e depois começarei uma peregrinação por São Paulo e Brasília para buscar recursos e parcerias com a iniciativa privada, ou seja, farei todo o esforço possível. É uma questão de honra pessoal, em meu quarto mandato, dotar a cidade de um espaço cultural decente, digno, que o povo de Matão tenha orgulho. Este é um compromisso meu com a comunidade. Um dos acordos que tenho com o presidente do MDB local, Marcos Galli, ainda com a possível vitória do deputado Baleia Rossi para a presidência da Câmara Federal, é de sermos parceiros na busca de recursos para finalizar essa obra.


Suas gestões foram marcadas pela ampliação da malha viária, mas algumas interligações ainda estão incompletas. Elas serão concluídas neste mandato?

Estes projetos já estão todos prontos. Já propus uma permuta ao Dimas Bernichi visando a liberação de sua área para fazermos a benfeitoria de ligação da Avenida Antônio Gorgatti com o Parque Imperador. Com os recursos de duas ou três emendas parlamentares, resolveremos este ‘gargalo’. Até já fiz uma pista que liga a Antônio Gorgatti ao Distrito Industrial Adolfo Baldan. Neste mandato ainda pretendo fazer o pequeno trecho que falta para interligar a Avenida Trolesi, da frente do Supermercado Palomax ao Parque Imperial, e a segunda pista na Avenida João Marchesan para complementar o anel viário. Também pretendo retomar, talvez ainda neste ano, a obra de ligação do Jardim do Bosque com o Quatro Centenário – o ‘Pelé’! Depois do ‘Mané Garrincha’ (Túnel da Liberdade), teremos o ‘Pelé’! (risos). O projeto está prontinho. Já falei com o Neto Masselani e lá para março, abril, quando as atividades voltarem ao normal, levarei o projeto ao Governo do Estado para buscar recursos do programa Investe São Paulo. Com esta ligação, resolveremos todos os ‘gargalos’ viários provocados pela linha férrea.

Como o senhor espera terminar este quarto mandato?

Se daqui a quatro anos, em 2024, quando estiver com 71 anos, eu concluir essas obras que iniciei ou tenho os projetos, vou me considerar um homem muito feliz, no sentido de ter procurado cumprir o papel histórico que me coube junto a nossa querida Matão, ou seja, deixar a cidade melhor, mais alegre, mais humana, para nossa população retomar o orgulho de ser matonense. Estou muito determinado para isso!

Fonte: Sérgio Gabriel


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